Trabalho desenvolvido na UnB cria nanofertilizantes sustentáveis que unem tecnologia, produtividade e preservação ambiental
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| Comitiva de autoridades e representantes do setor produtivo visita o PADDF para conhecer os resultados da Arbolina, nanofertilizante desenvolvido a partir do projeto financiado pela FAPDF |
Inovação surge como resposta direta a dois dos maiores desafios do agronegócio brasileiro em 2025: a quebra de safra por eventos climáticos extremos e a dependência recorde de fertilizantes importados
Em um ano em que o agronegócio brasileiro enfrenta perdas consolidadas na safra 2024/2025, com quebras de produção de grãos atribuídas diretamente a secas severas e ondas de calor, e que o país vê sua dependência de insumos externos atingir novos recordes, uma pesquisa desenvolvida em Brasília aponta um caminho de soberania e resiliência.
Trata-se do projeto "Materiais Carbonáceos Nanométricos na Agricultura Sustentável", fomentado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF). O trabalho, conduzido na Universidade de Brasília (UnB), resultou na criação de "fertilizantes inteligentes" à base de carbono que aumentam a produtividade e, crucialmente, fortalecem as plantas contra a escassez hídrica.
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| Diferença visual entre plantas de batata-inglesa cultivadas sem tratamento (à esquerda) e com o uso de nanomateriais de carbono (à direita) |
A notícia da inovação local dialoga diretamente com o cenário nacional. Relatórios de veículos como a Agência Brasil e o Canal Rural têm destacado a urgência de "agricultura regenerativa" e de tecnologias que aumentem a resiliência das lavouras. Ao mesmo tempo, dados do setor, reportados por jornais de economia, indicam que as importações de fertilizantes em 2025 continuam em patamares elevados, pressionando os custos de produção e expondo um gargalo estratégico para o país.
A pesquisa do Distrito Federal ataca exatamente esses dois pontos.
Nanotecnologia verde contra a seca
Coordenado pelo professor Brenno Amaro da Silveira Neto, do Instituto de Química da UnB (IQ/UnB), o projeto aposta na chamada "nanotecnologia verde". A equipe multidisciplinar desenvolveu nanofertilizantes compostos essencialmente por carbono — partículas mil vezes menores que um fio de cabelo — que atuam como veículos de alta eficiência para nutrientes.
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| Brenno Amaro: “Graças ao apoio da fundação, conseguimos padronizar processos, reduzir riscos tecnológicos e alcançar reprodutibilidade em larga escala” | Fotos: Divulgação/FAPDF |
Na prática, eles funcionam como "fertilizantes inteligentes": liberam os nutrientes de maneira gradual e direcionada, o que aumenta drasticamente a absorção pelas plantas e reduz o desperdício por lixiviação (quando os nutrientes são "lavados" pela água no solo).
O resultado mais expressivo para o atual contexto climático do país foi a resiliência. "Os materiais carbonáceos permitiram um desenvolvimento significativamente melhor das plantas mesmo em condições adversas, como escassez de água, variações de temperatura e uso reduzido de defensivos agrícolas”, explica o professor Brenno.
Testes de campo em culturas como milho, algodão, cacau, tomate e batata confirmaram o aumento do teor de clorofila, maior biomassa vegetal e crescimento uniforme mesmo em períodos de seca.
Da bancada à fazenda: A soberania nacional
O projeto, que contou com a colaboração da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ilustra o que o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) tem incentivado como "inovação aberta" no setor.
O fomento da FAPDF foi o pilar para escalar a solução. “O fomento da FAPDF foi decisivo para transformar uma prova de conceito em uma plataforma aplicada à nanotecnologia verde”, afirma Brenno. "Conseguimos padronizar processos, reduzir riscos tecnológicos e alcançar reprodutibilidade em larga escala."
Para o presidente da FAPDF, Leonardo Reisman, o investimento demonstra o papel da pesquisa aplicada. “É uma satisfação ver o Distrito Federal se consolidando como referência em tecnologias limpas e produtivas, resultado direto do fomento à pesquisa e da parceria entre universidade, governo e setor produtivo”, ressalta.
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| Comparativo de produção em tomateiros coletados em plantação comercial. À esquerda, o grupo controle; à direita, o grupo tratado com nanofertilizantes à base de carbono, evidenciando maior quantidade e tamanho dos frutos após o uso da tecnologia |
A pesquisa já gerou frutos comerciais. A Arbolina, primeiro nanofertilizante de carbono desenvolvido no Brasil, nasceu dessa linha de pesquisa e é comercializada pela startup Krilltech, criada a partir de estudos da UnB e Embrapa. O produto já possui registro no Ministério da Agricultura, garantindo segurança para uso comercial.
A produção nacional da tecnologia não é um impacto secundário; é central. Ao reduzir a necessidade de adubos convencionais — muitos dos quais o Brasil importa — a inovação contribui diretamente para diminuir a dependência externa do país, um tema prioritário na agenda econômica do governo federal e do setor industrial em 2025.
Segurança e Impacto Social
Um pilar do projeto foi a segurança ambiental. Os nanomateriais passaram por rigorosos testes de toxicidade, seguindo padrões internacionais da OCDE (incluindo ensaios com embriões de peixe-zebra), que confirmaram baixa toxicidade e ausência de efeitos adversos.
Ao diminuir o uso de fertilizantes químicos, a tecnologia também reduz a emissão de gases de efeito estufa e a contaminação do solo e da água, alinhando-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Para pequenos produtores do DF e Entorno (Ride), a tecnologia representa menor custo, maior estabilidade de produção e uma ferramenta vital de adaptação às mudanças climáticas.













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