Itens de decoração artesanais são a nova tendência de luxo da arquitetura Projeto de Mariana Carvalho na CasaCor Goiás 2026 traduz o avanço...
Itens de decoração artesanais são a nova tendência de luxo da arquitetura
Projeto de Mariana Carvalho na CasaCor Goiás 2026 traduz o avanço da economia criativa ao integrar artistas locais e transformar o feito à mão em ativo de valor no design contemporâneo
| Crédito - Elton Rocha |
O luxo na arquitetura contemporânea está deixando de ser definido apenas por materiais nobres ou grandes marcas para incorporar atributos mais intangíveis como história, autoria e propósito. Esse movimento acompanha uma transformação maior no comportamento de consumo e no próprio mercado. Segundo dados do Valor Econômico a arte no Brasil movimenta cerca de R$ 50 bilhões por ano. Em 2026, essa realidade chegou com força total à arquitetura de alto padrão: os itens artesanais, autorais e produzidos por mãos locais tornaram-se o novo sinônimo de sofisticação.
Longe da produção em série, o consumidor contemporâneo busca autenticidade, memória e identidade nas peças que habitam seus espaços. Nesse novo cenário, o feito à mão deixa de ocupar um espaço periférico e passa a ser protagonista em projetos de alto padrão. A valorização de peças únicas, produzidas em pequena escala e com identidade local, não apenas atende a uma demanda por exclusividade, mas também cria cadeias produtivas mais sustentáveis e inclusivas.
É nesse contexto que o living Camadas da Intuição, assinado pela arquiteta Mariana Carvalho para a CasaCor Goiás 2026, se posiciona. Mais do que um ambiente, o espaço funciona como uma vitrine qualificada para artistas, conectando suas produções a um público que busca significado e diferenciação.
Quando o projeto vira plataforma para pessoas
O living reúne obras de artistas — em sua maioria goianas — cujas criações foram incorporadas não como decoração, mas como extensões de uma narrativa. Cada peça carrega camadas de significado, do olhar intuitivo ao corpo como território de transformação, em um espaço onde arte e vida se entrelaçam.
“Existe uma escolha muito consciente em trazer essas pessoas para dentro do projeto. Não é apenas sobre estética, mas sobre dar visibilidade a processos, histórias e trajetórias que normalmente ficam nos bastidores”, afirma Mariana.
A curadoria do ambiente articula diferentes linguagens e perfis criativos. Os tapetes “Olhar para o céu”, de Marcus Camargo, estruturam o espaço ao mesmo tempo em que carregam um discurso autoral. Já as ilustrações de Emilia Simon surgem de um processo que combina pesquisa, repertório visual e experimentação, refletindo uma produção que dialoga com o campo das artes visuais contemporâneas.
| Crédito - Elton Rocha |
Produção feminina e a força da autoria local
Entre os nomes que compõem o ambiente, as mulheres são maioria e suas trajetórias revelam como o fazer artístico feminino tem se afirmado com crescente autonomia e autoria no cenário goiano. Um dos recortes mais evidentes do projeto é o protagonismo feminino. Artistas como Nicolle Belchior, de 37 anos, representam uma geração que transita entre diferentes linguagens e constrói uma produção autoral baseada em processos híbridos.
Sua pintura, desenvolvida em acrílica sobre tela, combina intuição e técnica, com forte influência do corpo e do movimento e também herança de sua trajetória como bailarina. "Existe um primeiro momento mais intuitivo, de criação, onde eu deixo o gesto acontecer. Isso tem muita influência da dança. Fui bailarina durante 15 anos, então o movimento e a consciência corporal estão muito presentes na forma como eu crio", explica Nicole.
Thaís Parreira, 38 anos, traz para o espaço uma produção que dialoga diretamente com o universo simbólico do tarot. Com passagem pela arquitetura e pela consultoria de imagem, sua obra reflete um percurso profissional multifacetado, que converge em uma linguagem visual marcada por narrativas e construção de sentido.
Já Emilia Simon, 40 anos, reforça o papel da arte como meio de comunicação. Sua produção parte de temas e referências estruturadas, mas se desenvolve de forma fluida, permitindo que o processo criativo também conduza o resultado final, característica que tem ganhado espaço em um mercado cada vez mais aberto ao experimental. "Pintar é minha maneira de comunicar com o mundo, de expressar minha linguagem autoral e me conectar profundamente com as pessoas que se identificam com meu trabalho", afirma Emilia.
Outros nomes também reforçam essa dimensão ampliada da arte. Valéria Salvador, com suas cerâmicas, trabalha a materialidade de forma sensorial, conectando o ambiente ao gesto manual. Andréia Rocha Lima, designer com trajetória consolidada desde 2007, traz um repertório que transita entre arquitetura, decoração e arte, com foco na construção de espaços humanizados. Sua produção artística que envolve aquarela, bordado e colagem, revela uma abordagem que valoriza memória e afetividade como elementos centrais do design.
Fabiana Queiroga é artista visual e poeta visual com 26 anos de trajetória. Sua prática investiga as relações entre corpo, memória e espaço, com circulação internacional em cidades como Nova York, Miami, Londres, Santiago e Lima. Sua investigação concentra-se na memória corporal como território sensível, explorando os encontros, tensões e deslocamentos do corpo no espaço.
Do fazer manual ao impacto social
Se por um lado a arte se consolida como ativo econômico, por outro ele amplia seu alcance ao incorporar impacto social. É o caso de Rafael Chaves, 44 anos, que encontrou no bordado uma forma de expressão e também de contribuição. Desde 2018, seu processo criativo envolve a coleta e reaproveitamento de materiais, organizados a partir de cor, forma e intenção.
Parte da renda obtida com suas peças é destinada a uma instituição voltada ao tratamento de Ataxia, ampliando o valor de sua produção para além do objeto. “Meu desafio é comigo mesmo, com a disciplina de criar. Mas o que me motiva é ver a reação das pessoas e saber que a arte pode ser acessível e, ao mesmo tempo, significativa”, afirma.
Camadas da Intuição
O retorno de Mariana Carvalho à CasaCor Goiás, após nove anos, acontece em um momento em que a própria mostra se reposiciona como plataforma de tendências e negócios. Em Camadas da Intuição, a arquiteta apresenta um living de 60 m² que vai além da estética maximalista e da inspiração no tarot para se tornar um estudo sobre o novo luxo.
Ao integrar artistas locais e evidenciar o valor do feito à mão, o projeto materializa uma mudança estrutural no setor: a arquitetura passa a atuar também como agente de conexão entre criadores, mercado e consumidor final. Nesse contexto, a arte deixa de ser apenas linguagem estética e se consolida como estratégia, econômica, cultural e simbólica.
A 29ª edição da CasaCor Goiás acontece até o dia 21 de junho, na Rua 1131, no Setor Marista, em Goiânia. Em um contexto marcado pela hiperconectividade e pela busca constante por produtividade, a edição de 2026 propõe uma pausa e um convite à reconexão com o essencial. O tema “Mente e Coração” orienta os projetos ao resgatar o lar como um espaço de equilíbrio entre corpo e espírito, razão e sentimento.








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