MTEC Energia

Austeridade fiscal, caminho obrigatório para ordem e progresso

Samuel Hanan*   Quando se aproximam as eleições, o brasileiro se pergunta se é possível ter um país melhor em condições de vida para todos o...


Samuel Hanan*

 

Quando se aproximam as eleições, o brasileiro se pergunta se é possível ter um país melhor em condições de vida para todos os cidadãos. É o que se deseja. O problema é que, na hora de escolher o futuro presidente, o eleitor é bombardeado por uma avalanche de publicidade governamental e de promessas no horário eleitoral gratuito e, sem condições de fazer uma análise técnica da situação do país, acaba envolvido em narrativas e retóricas que, sabidamente, não refletem a realidade e, na maioria das vezes, não se realizarão. Esse cenário remete ao filósofo Sigmund Freud, segundo o qual “as massas nunca tiveram sede da verdade, elas querem ilusão e não vivem sem elas”.

 

Agora, a um ano do pleito, uma análise mais profunda da situação nacional revela que nas últimas décadas o país enveredou por um caminho muito perigoso. É inadmissível que os governos nacionais continuem querendo amenizar o fracasso de gestões transferindo a culpa a governos anteriores. Lembremos que desde 2000, o Brasil foi governado por diferentes gestores de ideologias diversas (2 anos de PSBD, 16,4 anos de PT, 2,3 anos de PMDB, e 4 anos de PL), e que seguem postulando o mesmo cargo nas próximas eleições.

 

 O fato de o Brasil estar entre as 10 maiores economias do planeta não esconde que ainda enfrenta problemas gravíssimos, em especial o empobrecimento da maioria da população. Segundo o Banco Mundial, em 2010, a renda anual per capita do brasileiro era de US$ 11.391. Em 2024, fechou em US$ 10.234, perda de 10,15% em 14 anos. Nesse mesmo período o PIB mundial cresceu 64%, mostrando que o Brasil ficou para trás.

 

Pior ainda foi o resultado primário. Em 2022, o país registrou superávit primário de R$ 55 bilhões, o correspondente a 0,60% do PIB. Depois disso, a situação se inverteu. A partir de 2023, em todos os anos se registrou déficit primário: de R$ 229 bilhões naquele ano, ou 2,10% do PIB; de R$ 11 bilhões (0,10% do PIB) em 2024, e para 2025 a previsão é de déficit de R$ 75 bilhões (0,60% do PIB), sem contar as exclusões não recomendadas pela TCU, estimadas em outros R$90bilhões.

 

Sem controle de gastos, a dúvida pública da União só aumenta. Em 2022 (governo anterior), era de R$ 5,95 trilhões (59,8% do PIB) e agora deverá atingir o recorde de R$ 8,00 trilhões em 2025, equivalente a 65,0% do PIB, segundo as previsões.

 

Com a dívida pública da União crescendo à razão de R$ 1,0 trilhão/ano, o custo para a nação também se eleva muito em razão da consequente alta da taxa de juros. Os juros da dívida pública que consumiram R$ 700 bilhões em 2022, graças à taxa Selic de 11,75% de acordo com as estimativas, devem atingir R$ 1,12 trilhão em 2025, com a taxa Selic em 15,00% devido ao descontrole gerncial e teimosia em não cortar gastos. A conta sobra para o contribuinte. Nesses últimos três anos, a carga tributária passou de 30,3% do PIB em 2022, devendo fechar 2025 com algo próximo entre 34,0% e 34,5%, ou seja, elevação assustadora de 3,2 pontos percentuais. E querem mais.

 

Paradoxalmente, o brasileiro vem pagando mais impostos, porém não vê sua vida melhorar. As desigualdades permanecem. Mais de um terço da população (35,60%) tem renda bruta mensal de até um salário-mínimo (R$ 1.518,00), enquanto outros 21,60% dos brasileiros vivem com renda entre 1 e 2 salários-mínimos (de R$ 1.518,00 até R$ 3.036,00). E 22,80% da população ganham entre 2 e 2,3 salários-mínimos por mês, ou seja, entre R$ 3.036,00 e R$ 3.500,00.  Em resumo, 90% dos brasileiros vivem com renda mensal bruta de até R$ 3.500,00.

 

Há ainda outros indicadores sociais mostrando que o Brasil não garante qualidade de vida de seu povo. Em 2022, o país ocupava a 73ª posição no mundo em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e caiu para a 84ª colocação em 2024. No coeficiente de Gini, que mede a desigualdade na distribuição de renda, está em 53º lugar entre 58 países. No Índice de Retorno de Bem-Estar à Sociedade (IRBES), que analisa a relação entre a carga tributária e o retorno em qualidade de vida à população, o Brasil é o último colocado entre as 30 nações que compõem o ranking. Também é pífio o desempenho brasileiro na educação, a nível mundial. O Pisa, mostra que ficamos em 53º lugar em leitura; 65º em matemática, e 53º em ciências. No Índice de Percepção da Corrupção, o país ocupa hoje sua pior colocação na história: caiu 35 posições e está na 107ª posição. Quando o assunto é violência urbana, somos campeões mundiais em número absoluto de homicídios intencionais, um título vergonhoso.

 

A máquina pública é gigante e ineficiente. Consome anualmente cerca de R$ 1,7 trilhão por ano ou quase 13,5% do PIB (Estadão 07.09.25), mais do que a média (9,3%) dos 38 países da OCDE, mesmo possuindo quase metade do número de servidores. Esse paradoxo encontra explicação nos privilégios e penduricalhos nos salários. A remuneração média dos ocupantes do topo da pirâmide do funcionalismo do governo federal é 67% maior que a média paga pelo setor privado. E mesmo entre os poderes há diferenças: se comparado com o Executivo, o Poder Legislativo paga 63% a mais, e o Judiciário tem remuneração média 263% maior.

 

Para 2026, o orçamento da União prevê gastos de R$ 219,80 bilhões em programas sociais, incluindo Bolsa Família, BPC, Pé de Meia, auxílio-gás, farmácia popular e FIES. São programas importantes e necessários, porém sem porta de saída. Consomem 1,64% do PIB, mais do que a União investirá em educação (1,02% do PIB), em segurança pública (0,03%) e em habitação (0,04% do PIB). Para essas áreas essenciais, o Orçamento 2026 garantirá R$ 391,60 bilhões, ou 6,00% do total, ante 3,37% dos programas sociais.

 

Os investimentos poderiam ser bem maiores se o país não tivesse de pagar R$ 1,12 trilhão de juros sobre as dívidas públicas (7,76% do PIB), além de R$ 455 bilhões (3,40% do PIB) em déficits previdenciários. Nessa conta entram mais de R$ 600 bilhões (cerca de 5,00% do PIB) em gastos tributários da União - renúncias fiscais - , dinheiro que o governo deixa de arrecadar (muitas das vezes sem prazo de vigência nem decrescente ao longo do tempo). Por tudo isso, o valor para investimento previsto será de pífios R$ 83 bilhões, ou 0,62% do PIB. Pouco demais para um país que precisa de muito investimento em infraestrutura para atender minimamente sua população de 213,4 milhões de pessoas.

 

Embora venha aumentando a carga tributária e com previsão de arrecadação recorde em 2026 e 2027, amarga o maior déficit nominal e a mais alta dívida pública. Esses resultados reprovam todos os governos das últimas décadas, revelando que o país se ressente de um plano de metas e de maior controle dos privilégios e da corrupção, exigindo mais verdades e menos narrativas, e reclamando urgentemente maior austeridade fiscal.

 

A história registra, infelizmente, que, desde 1990, dos seis presidentes da República eleitos ou que depois assumiram o cargo, apenas dois (Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso) encerraram seus mandatos sem nenhum arranhão na esfera penal. Outros dois sofreram impeachment e os demais enfrentaram problemas na Justiça. No mesmo período, quatro ex-presidentes da Câmara dos Deputados foram presos, situação que mostra bem a deterioração ética dos políticos brasileiros.

 

O diagnóstico da situação nacional não é bom, face gestão inadequada e inexistência de plano de metas ou plano de governo. Há, porém, caminhos para que essa situação seja revertida e o país reencontre o rumo do desenvolvimento com justiça social. Para isso será necessário que o presidente cumpra as obrigações contidas no arcabouço fiscal já aprovado, especialmente a de acabar com o déficit e gerar superávit primário, o que facilitaria a redução da inflação – hoje entre 4,8% e 5,1% -, levando-a para perto do centro da meta de 3% ao ano.

 

Outro exemplo: se o governo reduzir em apenas 1,5 ponto percentual as despesas primárias, que já foram de 14,7% do PIB no governo de FHC e hoje ultrapassam 19% do PIB, o déficit primário de 0,60% do PIB passará a superávit de 0,90% do PIB. Atrelado à redução de privilégios, penduricalhos e desperdícios, isso contribuiria para a redução das despesas acima de R$ 180 bilhões/ano, sem traumas e sinalizando a investidores, analistas, instituições financeiras, empresários e à mídia, a disposição política de inaugurar uma nova era, a era da austeridade fiscal.

 

É possível economizar ainda mais. Basta o Executivo enviar ao Congresso Nacional um programa de redução dos gastos tributários da União, em cumprimento ao já determinado pela Emenda Constitucional nº 109, de 2021, que estabeleceu o teto de gastos em 2% do PIB, hoje cerca de R$ 250 bilhões/ano. Esse teto é ignorado e hoje gasta-se mais de 5,5% do PIB. Se houvesse a redução de apenas metade do estabelecido pela EC nº 109, o país economizaria mais R$ 220 bilhões por ano.

 

Além disso, com superávit de 4,0% a 4,5% do PIB (de R$ 500 a R$ 560 bilhões/ano), seria possível trazer a inflação para o centro da meta (3% ao ano) e, com isso, estabilizar a dívida pública da União (hoje de 70% do PIB) e do governo geral, de 80% do PIB, criando-se as condições para a redução da taxa real Selic de 9,5% a.a. para 6% a.a. descontada a inflação de 3% ou 3,5% (nominal de 15% para 11%). O resultado seria redução dos juros e economia de cerca de R$ 300 bilhões anuais. Com todas essas medidas, seria facilmente possível economizar mais de R$ 800 bilhões/ano. Não é pouca coisa.

 

Permitiria ampliar em 50% todos os programas sociais existentes, reforçar o SUS e ainda implantar o ensino obrigatório em tempo integral, capacitar e remunerar melhor os professores, melhorar a vigilância das fronteiras, portos e aeroportos para evitar a entrada de armas e drogas que alimentam as facções criminosas, e ainda realizar grandes investimentos em infraestrutura. Seria um passo fundamental para reduzir o custo Brasil e gerar valor adicionado em nossa pauta de comércio exterior.

 

É urgente o governo entender que praticar Austeridade Fiscal é o maior Programa Social em benefício da população, a maior e melhor fonte de recurso já disponível para manutenção e ampliação dos tão necessários Programas Sociais para correção das inaceitáveis e injustas desigualdades sociais e regionais do país, tudo sem nenhum aumento de tributo e sem culpar ninguém. Sem dar concretude a essas duas palavras, nunca atingiremos as outras duas que são o lema da nação: ordem e progresso.

 

 

*Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva” e “Caminhos para um país sem rumo”. Site: https://samuelhanan.com.br

 

COMENTÁRIOS

Adasa - Campanha Estiagem 2025

TÉCNICO INDUSTRIAL$type=complex$count=8$l=0$cm=0$rm=0$d=0$host=https://www.etormann.tk

Carregar todos os posts Nenhum post encontrado Ver Tudo Mais Responder Cancelar resposta Deletar Por Início Pág. Posts Ver mais Relacionadas Marcador Arquivo BUSCAR Tudo Sua busca não encontrou nada Voltar Domingo Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro Jan Fev Mar Abr Maio Jun Jul Ago Set Out Nov Dez agora Há 1 minuto Há $$1$$ minutos Há 1 hora Há $$1$$ horas Ontem Há $$1$$ dia Há $$1$$ Semanas Há mais de 5 semanas Seguidores Seguir Este conteúdo está bloqueado Passo 1: Compartilhe em sua rede social Passo 2: Clique no link compartilhado para retornar Copiar todo o código Selecionar todo o código All codes were copied to your clipboard Can not copy the codes / texts, please press [CTRL]+[C] (or CMD+C with Mac) to copy Súmário