Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América, discursa no debate geral da octogésima sessão da Assembleia Geral - Foto: Foto: Mark...
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| Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América, discursa no debate geral da octogésima sessão da Assembleia Geral - Foto: Foto: Mark Garten/ONU via FP |
Ultimato disfarçado de diplomacia, afirma historiador*
Em meio à escalada de tensões no Oriente Médio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem sido o centro de debates internacionais após seu discurso na Assembleia Geral da ONU em 23 de setembro de 2025, onde reivindicou o Prêmio Nobel da Paz por supostamente encerrar "sete guerras intermináveis". No entanto, para o historiador e doutor em relações internacionais Fernando Horta, o recente plano de paz proposto por Trump para Gaza não passa de um "ultimato fantasiado", motivado pela vaidade pessoal do líder americano e com o objetivo de expor as lideranças do Hamas ao ridículo, preparando o terreno para mais violência.
De acordo com Horta, em uma análise recente transcrita de uma declaração pública, o plano serve a dois interesses principais. O primeiro é a "imensa vaidade" de Trump, que busca o Nobel da Paz. "Tanto é que fez o discurso na ONU pedindo isso, mentindo que ele tinha terminado com sete guerras e por qualquer uma delas ele deveria ganhar o prêmio", afirmou Horta. Essa alegação foi repetida por Trump na ONU, onde ele criticou a organização por não resolver conflitos globais, afirmando: "Em sete meses, eu encerrei sete guerras que diziam ser intermináveis". No entanto, veículos como a Associated Press classificaram a declaração como falsa, destacando que conflitos como os em Gaza e na Ucrânia continuam ativos.
Horta vai além, sugerindo que Trump já tenta o prêmio há tempos e que o plano – que ele não duvida que venha a ser batizado de "Plano Trump" – é uma nova tentativa de postulação. O segundo objetivo, segundo o historiador, é culpar o Hamas pela violência futura. "Expor as lideranças do Hamas ao escárnio da sociedade palestina, culpá-los pela violência que Israel deve cometer nos próximos dias", explicou. O plano, anunciado no início de outubro, propõe uma troca de reféns israelenses por prisioneiros palestinos, com fases de cessar-fogo e retirada inicial de forças israelenses. Mas, para Horta, ele carece de legitimidade, pois não envolve atores soberanos reconhecidos pelas forças palestinas, citando interlocutores como Egito, Catar e Arábia Saudita, mas questionando sua representatividade.
O historiador descreve o plano como uma exigência de rendição: "Rendam-se agora, entreguem os reféns e as últimas coisas que vocês têm à disposição e aí paguem para ver se nós, no caso Trump e Netanyahu, vamos cumprir as promessas". Ele destaca promessas nebulosas, como a saída segura de líderes do Hamas de Gaza, que considera "uma enorme mentira". Além disso, o plano não aborda questões importantes para os palestinos, como a formação de um Estado soberano, a defesa da população ou a reconstrução de Gaza. "Não diz absolutamente nada que interessa ao povo palestino", enfatizou Horta, prevendo que o Hamas nem responderá, levando a uma piora na violência.
Essa visão crítica ecoa em parte das reações internacionais ao discurso de Trump na ONU e ao plano subsequente. Na BBC, o discurso foi contextualizado com risos da audiência em anos anteriores, contrastando com as reivindicações atuais de Trump, que repetiu a narrativa de "sete guerras encerradas". O New York Times publicou uma verificação de fatos, desmentindo as alegações e destacando que o plano para Gaza poderia ser visto como uma "oitava" conquista, segundo o próprio Trump. Já o Le Monde reportou declarações de Trump afirmando que não ganhar o Nobel seria um "insulto" aos EUA, ligando-o diretamente ao plano de Gaza.
Veículos globais mostram uma divisão nas repercussões. A trumpista CNN cobriu o plano como um avanço potencial, notando que Trump ordenou a Israel parar os bombardeios após o Hamas aceitar elementos iniciais, como a liberação de reféns em troca de 250 prisioneiros palestinos e 1.700 detidos em Gaza. O Al Jazeera, por sua vez, focou na resposta do Hamas, que busca mudanças no plano de 20 pontos, questionando sua viabilidade. No Oriente Médio, o Mondoweiss destacou o que o Hamas "não aceitou", sugerindo que Netanyahu foi pego de surpresa e criticando o plano como insuficiente para uma paz real. Na Índia, o The Hindu relatou comentários do chefe de direitos humanos da ONU sobre violações em Gaza, contextualizando o plano como uma tentativa de Trump de mediar.
A Casa Branca, em comunicado oficial, elogiou o plano como uma "visão ousada" com "apoio global", listando endossos internacionais. No entanto, analistas como Horta veem nisso uma estratégia de propaganda: "A propaganda norte-americana vai dizer que toda violência subsequente vai ser responsabilizada na conta do Hamas". Ele conclui com uma reflexão sombria sobre o "império no limite", onde a liderança prioriza vaidade sobre legado, sugerindo que Trump "vai enterrar os Estados Unidos".
Enquanto o mundo observa, o plano de Trump testa os limites da diplomacia americana, com repercussões que vão de elogios a ceticismo, refletindo as divisões profundas no conflito israelense-palestino.
*Fernando Horta é doutor em história das relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e consultor ONU/PNUD para transformações digitais.










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