TODOS UNIDOS?

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Os governadores eleitos Ibaneis Rocha (DF), João Doria (SP) e Wilson Witzel (RJ), durante Fórum de Governadores eleitos e reeleitos, em Brasília.
Grandes crises nacionais como guerras, catástrofes econômicas e epidemias tendem a criar um clima de unidade nacional. A burguesia, no seu papel de classe dominante, explora a fundo este romantismo superficial em favor dos seus próprios objetivos de classe em detrimento das outras classes sociais, em particular a classe operária. É evidente que nenhuma crise nacional é capaz de eliminar os antagonismos de classe que não são resultado do capricho de ninguém, mas fazem parte da própria estrutura da sociedade capitalista.

Parte expressiva da pequena-burguesia e os políticos da esquerda oportunista pequeno-burguesa ingressam na ilusão da unidade nacional devido à sua posição entre as classes sociais. Seus interesses, na realidade, são essencialmente, aqueles da burguesia. As divergências políticas do dia a dia, que se apresentam nas “grandes” lutas parlamentares desaparecem e dão lugar à unidade de interesses.

É o que estamos vendo no Brasil neste momento. A maior parte da esquerda reformista e parlamentar aderiu rapidamente à política de unidade nacional com a burguesia e seus representantes políticos de direita.

Esta orientação foi explicitada pelo governador da Bahia, Rui Costa, uma das mais importantes lideranças nacionais do Partido dos Trabalhadores.

“Perguntado em entrevista sobre @LulaOficial e @jdoriajr, deixei clara a minha opinião: neste momento não existem adversários nem partidos políticos. Somos todos brasileiros em guerra contra um adversário poderoso. A guerra é para salvar vidas.” (Do Twitter do governador).

Aqui temos, da maneira mais clara possível, a ideologia de unidade nacional abraçada pela esquerda nacional.

Primeiramente, é preciso deixar claro que esta não é apenas a opinião individual e isolada do governador da Bahia, mas uma posição generalizada em toda a esquerda parlamentar. O governador baiano teve o mérito de expor com toda a nitidez o que a maioria esmagadora pensa. O episódio da aprovação pelo Congresso Nacional da renda emergencial e a falta de crítica à distribuição de dinheiro aos capitalistas o mostra acima de qualquer dúvida.

Um segundo aspecto é a emergência na esquerda do nacionalismo de fachada da direita e da extrema-direita: “somos todos brasileiros”. Esse nacionalismo de mera aparência para propósitos políticos é uma marca registrada da burguesia.

Outro eco do bolsonarismo: “não há partidos políticos”, ou seja, meu partido é meu país. Outra apropriação da política cínica da direita.

Esta manifestação da ideologia bolsonarista não é nem acidental, nem novidade. Ela faz parte da política burguesa de amplas alas da esquerda. Ela apenas veio à tona com mais força porque a crise oferece uma oportunidade para que estes setores se desloquem mais à direita. Em condições normais, ou seja, sem a pressão das condições exteriores, uma tal manifestação abriria uma enorme crise política na esquerda. Nas condições atuais, a pressão externa possibilita este desenvolvimento. Afinal, a política burguesa e direitista das direções da esquerda pequeno-burguesa está em contradição com as bases populares.

A afirmação do governador tem um enorme valor para compreender a ideologia da esquerda pequeno-burguesa. A divisão do país em classes sociais, os partidos que expressam politicamente esta divisão são fenômenos secundários. Existem, mas a sua importância é pequena. Os conflitos entre esquerda e direita são uma luta secundária por uma posição no interior do Estado por meio das eleições. No momento, das grandes crises, devem ser colocados de lado.

A crise, desta forma, explica muito daquilo que ocorreu desde 2012 no Brasil com o processo do mensalão, com o golpe de Estado, com a perseguição contra Lula, com a fraude eleitoral. Em todos estes momentos, a maior parte da esquerda adaptou-se a esta situação porque tem uma base social, que dizer, de classe, comum com a direita.

De um ponto de vista político imediato, esta ideologia tem importantes consequências. Os dirigentes da esquerda, como Rui Costa, deram um passo fundamental para arrastar boa parte das massas e do ativismo esquerdista detrás da direita e da burguesia. Sua política é uma tentativa de superar a polarização existente pela unidade entre o proletariado e a burguesia.

A luta contra o governo Bolsonaro foi transformada em uma farsa. Tornou-se a luta contra um punhado de indivíduos. Não se trata mais, para eles, de derrotar a operação golpista, ou seja, todos os atores envolvidos no golpe, mas de isolar bolsonaro e uma pequena camarilha de bolsonaristas ultra fiéis. Na realidade, a luta contra Bolsonaro está sendo transformada em uma campanha de legitimação do golpe de Estado de 2016 e da virtual ditadura militar estabelecida no País.

Os limites desta operação, no entanto, são muito claros. Não há nenhum unidade nacional real. A burguesia utiliza a epidemia a fundo contra as massas populares para impor um enorme ataque aos salários, para se apoderar de uma parcela ainda mais significativa da renda nacional através da ajuda estatal. As medidas de “guerra” contra a epidemia sacrificam intencionalmente milhões de brasileiros que não podem se trancafiar em suas mansões ou apartamentos dos bairros de classe média, não têm reservas financeiras, não têm condições para o “isolamento social”, não têm sequer água encanada e que, no número de milhões, não conseguem sequer deixar de trabalhar e utilizar transportes superlotados.

A “unidade nacional” terá que se defrontar com as sérias tendências à explosão social que já vemos se manifestar em vários países pobres.

O contraste entre a esquerda pequeno-burguesa e a política da esquerda proletária também se acentua. É preciso se delimitar completamente desta política que somente serve aos interesses da burguesia e que significa enveredar pela via da derrota catastrófica das massas populares diante da crise da epidemia e econômica.

É preciso denunciar com todas as forças a política de unidade nacional, chamar os trabalhadores para que tenham no mais alto grau a desconfiança em relação à burguesia, seus partidos, sua imprensa, suas instituições, seus governos. Não menos, mas mais do que em qualquer outra situação. É preciso organizar a luta de classes. A defesa da mais completa independência política diante da burguesia está colocada como questão central do momento. São dois caminhos totalmente opostos.

Com informações do Diário da Causa Operária.
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