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Cerco dos EUA ao Irã e a nova face do imperialismo no século XXI

Trump Intensifica Cerco com Tarifas Globais

Cerco econômico prolongado antecede ações de mudança de regime - Fars News Agency/Divulgação


A economia como arma de guerra: Entenda como sanção dos EUA fragiliza economias como a do Irã

O cenário internacional enfrenta um dos seus momentos mais críticos. A diplomacia, outrora vista como o principal mecanismo de resolução de conflitos, parece ter sido definitivamente suplantada por uma modalidade de agressão mais silenciosa, porém não menos letal: a guerra econômica. No centro deste furacão está o Irã, uma nação que, nos últimos meses de 2025, tornou-se o laboratório definitivo para as estratégias de asfixia financeira lideradas pelos Estados Unidos e seus aliados.

O que se vê hoje em Teerã e nas principais províncias iranianas é o resultado de um cerco econômico prolongado que antecede ações de mudança de regime. Recentemente, o país foi alvo de ações militares diretas após a guerra de 12 dias iniciada por Israel em setembro de 2025. Contudo, para muitos analistas, o verdadeiro estrago não foi causado pelos mísseis, mas pela impossibilidade de transacionar no sistema financeiro global.

No início da semana passada, a pressão econômica contra Teerã ganhou um novo e agressivo capítulo. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou através de suas redes sociais a imposição imediata de uma tarifa de 25% sobre qualquer país que mantenha relações comerciais com a República Islâmica do Irã.

A medida, classificada pelo republicano como "definitiva e irrecorrível", atinge diretamente as transações comerciais que esses países realizam com os Estados Unidos. Na prática, Washington passa a cobrar um "pedágio" de um quarto do valor de qualquer produto exportado por nações parceiras do Irã para o mercado norte-americano.

Esta nova diretriz aprofunda o conceito de sanções secundárias, forçando o restante do mundo a uma escolha binária: o acesso ao maior mercado consumidor do planeta ou a continuidade do comércio com o governo persa. Segundo analistas, a ordem executiva visa não apenas fragilizar o Irã, mas também punir potências e blocos econômicos que têm buscado autonomia em relação à política externa da Casa Branca.

Anatomia de um cerco: O impacto nos índices de 2025

Para entender a gravidade da situação, é preciso observar os números. Na raiz dos protestos que sacudiram o país persa nas últimas semanas de 2025 está uma realidade matemática cruel: a desvalorização de 50% da moeda iraniana (Rial) e uma inflação oficial que atingiu 42% no acumulado do ano passado. Esses índices não são acidentais; são o produto direto de uma política externa que utiliza o dólar como arma.

Economista Juliane Furno - Paulo Pinto/Agência Brasil

A economista e socióloga Juliane Furno, professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), explica que o agravamento das sanções pela ONU em setembro de 2025 criou uma barreira operacional intransponível. "O agravamento das sanções, basicamente, impede ou dificulta a entrada de dólares no país. Tanto pelas sanções diretas, quanto pela dificuldade operacional do Irã em acessar o sistema financeiro internacional", afirma Furno.

As medidas atuais bloqueiam ativos do país no exterior, dificultam transações financeiras internacionais de qualquer natureza e proíbem quase todo o comércio entre o Irã e os EUA. Mais do que isso, a Casa Branca pune severamente empresas de terceiros países que realizam investimentos acima de US$ 20 milhões no setor energético iraniano, criando um "cordão sanitário" econômico que isola Teerã do mercado global.

O Petróleo sob custódia geopolítica

O Irã detém a terceira maior reserva de petróleo comprovada do mundo e é o quinto maior produtor de hidrocarbonetos. Em um mercado energético global estável, o país seria uma potência financeira. No entanto, sua dependência das exportações de óleo torna-o vulnerável às sanções cirúrgicas de Washington.

A relatora especial da ONU, Alena Douhan, em relatório publicado no segundo semestre de 2024, já alertava para a correlação direta entre as sanções e o desempenho econômico. Segundo Douhan, cerca de metade do orçamento fiscal do governo iraniano depende exclusivamente das exportações de petróleo e outros líquidos. Veja o histórico de impacto:

Período Média de Exportação (Barris/Dia) Contexto Político
2010 - 2015 700 mil a 1,4 milhão Sanções severas da era Obama
2016 - 2018 2,5 milhões Pós-Acordo Nuclear (JCPOA)
2020 Menos de 500 mil Reimposição de sanções (Pressão Máxima)
2025 (Outubro) Queda Crítica Pós-conflito de 12 dias e novas restrições

Somente entre 2018 e 2019, as exportações caíram 57%. Em 2025, com a destruição de infraestruturas chave e o bloqueio naval de fato, a receita do Estado iraniano atingiu níveis de subsistência, resultando em recursos insuficientes para garantir as necessidades básicas de grupos vulneráveis.

Crise humanitária: Medicamentos e morte

Um dos pontos mais sensíveis e menos debatidos na grande imprensa ocidental é o impacto das sanções na saúde pública. Embora os EUA aleguem que medicamentos são isentos de sanções, a prática bancária impede que laboratórios enviem insumos para o Irã por medo de retaliações colaterais.

Estudos da revista inglesa The Lancet apontaram que as sanções interromperam a importação de medicamentos essenciais, causando aumentos de preços de até 300% em remédios antiepilépticos. Mais de 6 milhões de pacientes com doenças crônicas ficaram sem acesso a tratamento de alta qualidade em 2025.

"O embargo econômico levou à redução das receitas do Estado e ao aumento da pobreza, exacerbando as desigualdades existentes", afirmou Alena Douhan. Ela destaca que o custo dos alimentos dobrou no último biênio, empurrando milhões para abaixo da linha da pobreza.

Artigos publicados na influente The Lancet Global Health calculam que as sanções unilaterais estão associadas a cerca de 560 mil mortes por ano globalmente. Esse número é comparável à carga de mortalidade associada a conflitos armados abertos, o que levanta a questão: as sanções são uma alternativa à guerra ou uma forma de genocídio administrativo?

O desmonte da classe média e o impacto de gênero

A estrutura social do Irã tem sido deliberadamente corroída. Um estudo da Revista Europeia de Economia Política El Sevier calculou que as sanções causaram uma redução média anual de 17 pontos percentuais no tamanho da classe média iraniana na última década. Em 2025, esse fenômeno atingiu o ápice, com a migração forçada de profissionais qualificados e o fechamento de indústrias nacionais que não conseguem importar peças de reposição.

A revista Estudos de Desenvolvimento (Taylor & Francis) aponta ainda que as mulheres são as mais afetadas. Com a diminuição dos gastos públicos em saúde, a mortalidade infantil aumentou e as mortes por cólera reapareceram em áreas periféricas. A expectativa de vida no país pode ser reduzida em até 1,4 anos se a intensidade atual do bloqueio for mantida por mais 24 meses.

Geopolítica, nuclearismo e seletividade

A narrativa de Washington sustenta que o objetivo é impedir o desenvolvimento de armas nucleares. No entanto, para críticos e especialistas em relações internacionais, como Bruno Lima Rocha (HispanTV Brasil), essa justificativa é um pretexto para manter a hegemonia no Oriente Médio.

Professor Bruno Lima Rocha. Foto: Arquivo Pessoal - Arquivo pessoal

"O país é signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP) e não tem ogiva alguma. Israel não assinou o TNP e tem um arsenal nuclear que não se sabe o tamanho nem o alcance", destaca Rocha. Ele argumenta que o compromisso dos EUA não é com a democracia — citando a aliança histórica com monarquias absolutistas da Península Arábica — mas sim com a neutralização de qualquer polo de poder que se oponha aos seus interesses e à ocupação da Palestina.

O mundo diante de um novo aaradigma

O caso iraniano em 2026 serve como um aviso para o restante do Sul Global. O uso abusivo da economia global como arma — o chamado weaponization of finance — está empurrando nações para fora do sistema tradicional. A tendência de desdolarização, liderada pelo bloco BRICS+, ganha força justamente como uma medida de autodefesa contra a arbitrariedade das sanções unilaterais.

Enquanto o Irã luta para manter seu sistema de saúde e sua soberania, o mundo assiste ao esgotamento de um modelo de governança global baseado na coerção. Se as sanções equivalem a guerras tradicionais em número de mortos e destruição social, é urgente que o direito internacional as trate como tais, sob o risco de transformarmos a economia mundial em um campo de extermínio burocrático.

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