O jornalismo erra ao alterar textos com intenção de dar maior ênfase

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Por Fernando Horta

Não gosto de fazer o que vou fazer, mas é preciso.

Há alguns dias venho alertando que algumas pessoas têm alterado os meus textos e repassado com as alterações mantendo os créditos.

O problema é que as alterações tornam o texto diferente e algumas vezes errado.

O original do texto foi publicado dia 04/05 e continua público na página.

Vou pontuar algumas diferenças e porque estas diferenças do original e do que está publicado agora por um site de esquerda (https://www.brasil247.com/…/Professor-de-História-da-UnB…) tornam o texto errado.

Na segunda linha do republicado (errado) está "2008 - Derrocada do modelo capitalista e prejuízo de 22 trilhões de dólares aos estados.". No original consta "Maior crise da história do capitalismo, prejuízo de 22 trilhões de dólares". A pessoa que modificou quis dar mais "punch" ao texto mas tornou ele errado. O capitalismo é caracterizado por crises, inúmeras, mas também por sua imensa capacidade de adaptação. Schumpeter nomina isto de "destruição criativa" e quem estuda História Contemporânea (como eu) jamais poderia falar em "derrocada do capitalismo". Ao pesar a mão a pessoa errou a dose.

Na terceira linha do texto alterado consta "2009 - começo obscuro e desconhecido da lava a jato com orientação dos EUA.". No original está "2009 - começo obscuro e desconhecido da lava a jato". Quem conhece a história da Lava a Jato sabe que ela começa em 2009 com uma investigação sobre um posto de gasolina e lavagem de dinheiro. Em 2009 ninguém conhecia a operação direito e Moro tem feito uma ginástica (creio eu ilegal) para atrair competência e julgar tudo sobre a Petrobrás. Não estou entre os que acreditam em maquinações dos EUA como ator central da crise brasileira. Estudo a fundo os EUA e venho dizendo que eles NÃO se caraterizam como um ator unitário. Não creio que estão na gênese da lava a jato, o que não quer dizer que não possam ter contribuído de alguma forma.

Na terceira linha diz "2010 - Lula paga toda a divida externa brasileira e acaba com o dinheiro fácil para os bancos estrangeiros.". O texto original não fala disto. E não fala porque Lula não pagou TODA a dívida externa brasileira. A pessoa que editou não sabe do que fala. Lula pagou a dívida com o FMI e se propôs a pagar a dívida pública com credores internacionais, que não aceitaram. Pela lei da oferta e da procura se o Brasil derramasse bilhões de dólares no mercado para pagar sua dívida externa a moeda americana sofreria uma diminuição de preço. Os credores não quiseram, então Lula aprovisionou os valores. A dívida formalmente não está paga, mas temos em reservas mais do que devemos, então a dívida não preocupa. O texto editado, entretanto está ERRADO.

Na quarta linha do texto editado está "2010 - Crise do Euro e inicio da quebra de vários países europeus." O original fala apenas em "Crise do Euro". Isto porque diversas economias européias já vinham, antes mesmo de 2010 com graves problemas (como a Grécia, Irlanda, Itália e etc) O problema se agrava com a crise de 2010 mas a crise não é a causa. Novamente, no afã de fazer um texto político a pessoa que editou torna o texto errado.

Na oitava linha do texto editado está "2013 - Dilma derruba a taxa basica de juros Selic para o menor patamar da história: 7,25%." e no original consta "2012/out - Dilma usa bancos públicos (BB e Caixa) para forçar a queda da taxa de juros que chega ao recorde de baixa de 7,25%". Textos diferentes e acho que a edição feita perdeu informação.

Na nona linha está "2013 - IBGE registra pela primeira vez o pleno emprego no Brasil, ou seja, menos de 5% de desempregados. (4,75%)." uma inserção que não está no texto original, apesar de não estar errada.

Adiante está no texto editado "2014 - criação das facções: MBL / Vem Pra Rua / Revoltados online / Nas Ruas.". No original apenas "2014/nov - criação do MBL". A diferença torna o texto errado, primeiro porque as datas estão erradas para os outros "grupos" que não o MBL e segundo porque o MBL pode-se traçar a origem de existência fora do Brasil, os outros grupos nem tanto. O MBL é financiado pelos "Students for Liberty". Publiquei texto no OperaMundi sobre isto. A professora Kátia Gerab Baggio tem um trabalho publicado interessantíssimo sobre a ligação interna-externa com think tanks. O erro do texto editado é a generalização sem cuidado.

Adiante no texto editado está escrito "2014-2015 - Eduardo Cunha paralisa o congresso e impede Dilma de governar.

2015 - Dada a incerteza política empresários param de investir, mídia cria e alimenta a narrativa da crise." e no original apenas "2014-2015 - congresso paralisa, empresários param de investir, mídia ventila a narrativa da crise.". A diferença revela muito. Não estou entre os que acham que a Dilma foi simplesmente "sabotada" e "impedida de governar". Creio que ela tinha inúmeras ferramentas à sua disposição que não usou. Não acho que o Eduardo Cunha tivesse tamanho poder. Dilma acreditou num republicanismo institucional que, dada a história do Brasil, foi uma crença infantil. Quem me acompanha sabe que discuto, inclusive com amigos, este ponto.

Seguindo no texto editado consta "2017 - morte de Teori Zavascki/indicação de tucano para o STF, mudança no marco regulatório do pre-sal, fim da previdência, das leis trabalhistas, da educação universal e do SUS, fatiamento e venda da Petrobras." e no original "2017 - morte de teori zavascki/indicação de tucano para o STF, mudança no marco regulatório do pre-sal, fim da previdência, das leis trabalhistas, da educação universal e do SUS". Eu não falo da Petrobrás aqui. Não há erro, mas o reforço de sentido não me agrada.

Por último, no texto consta como se eu fosse "professor de História da UnB". Sou formado em história pela UFRGS e faço meu doutorado na UnB em História das Relações Internacionais ligado, portanto, ao Instituto de Relações Internacionais. Dei aulas como professor temporário no IREL mas não tenho vínculo outro que não o da pós-graduação e pesquisa. Conheço os professores do curso de História da UnB, meu orientador é da História e sei de sua imensa qualidade. Alguns, entretanto, pensam muito diferente de mim e teriam divergências com o publicado.

No meu entendimento, o texto publicado com as alterações fica errado empiricamente. E serve apenas para fortalecer os críticos. No texto original, o maior vôo que dou é sobre a emenda do voto (que havia sido instalada no mesmo dia) e coloco "possivelmente" porque acredito que seja este o objetivo real do projeto. E não só eu, outros professores também assim se manifestaram. Mas é a única informação mais distante da empiria que me permiti.

Desculpem o tempo, mas ao compartilhar mantenham o link original. Tenho um cuidado até em mostrar as minhas próprias edições nas postagens, para evitar que alguém leve a culpa por alguma informação que eu tenha modificado sem indicar, não poderia me calar agora. Nada contra quem replicou a cópia mudada, sei que o fizeram sem conhecer o original, mas sites maiores, por favor, peguem a postagem original para se precaverem destes problemas.
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