Carta a nossa presidenta (por Fernando Horta)

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O sufoco passou. A senhora está reeleita. Com os méritos de ter mantido o emprego em momento de crise. Com a força dos programas sociais que antes de Lula inexistiam. Com o termo “oportunidade” ao lado de “democracia” e na frente do “mercado” e de “crescimento”. Tudo isso tem seu valor. Claro. Quero, entretanto, Presidenta, lembrar de todos os que, aqui embaixo, travamos batalhas duríssimas contra o ódio e a ignorância. Batalhas, muitas vezes que nos levaram amigos, que estremeceram relações familiares. Quero lembrar dos que saíram às ruas com bandeiras sendo ofendidos e até agredidos. A militância – que nada recebe pelo seu trabalho – foi a real força dessa vitória. Fizemos isso porque acreditamos em projetos e não em pessoas. Fizemos isso porque acreditamos num futuro e não queremos tampouco podemos mais aceitar desculpas.
Quando as coisas ficaram realmente feias, Presidenta, fomos nós que encaramos a defesa encarniçada do seu projeto. Não foram os empresários. Não foram os banqueiros. Não foram os seus apoiadores políticos (para lá de ecléticos). A mídia batendo forte diariamente e usando cada engano do governo, cada deslize de seus apoiadores contra um projeto que não é só seu. A militância, aqui em baixo, Presidenta, nos desdobramos para explicar, para convencer, para relativizar. Nosso trabalho foi silencioso, nosso trabalho foi diário e nós não subimos em palanques para lhe abraçar. Nós temos apenas como recompensa ver o Brasil da inclusão e da igualdade. E tal Brasil precisa definitivamente acontecer. E isso nos basta. Acredite
Contudo, tal esforço me permite listar algumas coisas que nós – militantes – não aceitaremos que a senhora não faça. Não aceitaremos desculpas até porque, algumas dessas coisas, tornam a nossa vida realmente mais difícil:
1) Exigimos uma reforma política séria, ampla e profunda. Reforma que não tenha constrangimentos no atual congresso porque ninguém legisla contra si mesmo. Uma reforma que acabe com os privilégios em cascata e que termine com um legislativo procrastinador e ineficaz que temos. Uma reforma que permita um congresso mais representativo e plural. Mais eficiente e com maior accountabiliy.
2) Exigimos uma reforma na mídia brasileira. Uma reforma que não toque na liberdade de expressão, mas que ataque a dependência da nossa mídia. Queremos uma mídia independente do grande capital, independente do interesse de meia dúzia de famílias. Independente de políticos. Uma mídia que desvincule a produção do produto cultural da veiculação, dando oportunidade para o surgimento de mais empregos, mais diversidade e menos controle.
3) Queremos uma reforma jurídica. Temos os juízes mais caros do mundo. Juízes que trabalham apenas meio ano (o resto é férias, recessos ou pontos facultativos). Temos um número insuficiente de defensores públicos e membros do ministério público. Temos um código antigo, antiquado e que defende a propriedade privada acima da vida e dos direitos das pessoas. Um código em que o termo “igualdade” é lateral e distante. Não temos confiança alguma na “liberdade de convencimento” dos nossos juízes e suas alianças espúrias com o crime.
4) Queremos uma reforma tributária ampla e igualitária. Que propicie a melhora na produção, mas que nos faça deixar de ser um país onde os pobres são os que mais pagam impostos e que menos recebem do Estado em troca. Que taxe o capital especulativo, nacional ou estrangeiro. Que taxe as grandes fortunas e que termine com os impostos em cascatas. Que pare de taxar desigualmente o consumo e a produção.
5) Queremos uma reforma educacional definitiva. Não é possível mudar a educação brasileira apenas com dinheiro. É preciso que se adotem sistemas que visem o compromisso dos docentes com o seu fazer profissional através da constante qualificação. O salário precisa aumentar (e muito), mas precisa ser reflexo da melhoria na qualificação de quem luta contra anos de desinteresse. Não é possível um professor ter 300 alunos por ano, mesmo que ele receba o salário de um juiz.
Existem outros pontos a serem mencionados, sem dúvida. Creio, entretanto, que os outros, de uma forma ou de outra, se encontram no seu radar político. Crescimento, saúde, inclusão e oportunidades para todos foram partes evidentes das suas propostas de campanha. Os temas que acima citei foram tocados muito de soslaio.
É preciso que suas ações, Presidenta, unam a esquerda. Que paremos de vender nossos sonhos em troca de pequenos avanços pragmáticos. Vendemos nossa verdadeira riqueza barata demais. A fome foi vencida, o ódio nós mostramos que podemos vencer. Mas nós, militância, não podemos sobreviver sem esperança. Sem acreditar que cada discussão em que somos ofendidos ou agredidos sirva muito claramente para que avancemos em direção a uma sociedade que tenha o ser humano e não o PIB como centro. Que tenha nossas ideias e não o apoio político fisiológico como razão de existência.
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Fernando Horta é professor, historiador, doutorando em Relações Internacionais na UNB.
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